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ARGUMENTO


A psicanálise com crianças e com adolescentes se defronta com novas manifestações sintomáticas associadas às mutações que ocorrem no discurso social. As questões clínicas daí decorrentes mobilizam a realização deste Congresso. Qual é o lugar da criança e do adolescente no discurso contemporâneo, premidos entre um consumo exacerbado e a carência absoluta nos dois extremos das classes sociais? Esta questão, dentre outras, emerge no trabalho psicanalítico com crianças e adolescentes de hoje e nos remete ao enunciado de Lacan que "o inconsciente é a política". Se o sintoma particular requer ser lido à luz do discurso dominante, cabe-nos avaliar as incidências subjetivas que dele decorrem, considerando os desafios econômicos, políticos e sociais vigentes.

Em um tempo dominado pela tecnologia e pelo consumo, constata-se na clínica psicanalítica que, apesar da inflação de um imaginário infantil povoado por brinquedos e cores, há fortes indicações de uma progressiva indiferenciação entre o mundo infantil e o mundo adulto. É evidente uma abusiva erotização da infância, uma antecipação do processo pubertário, as vezes dissociado da fase adolescente. Nesse ponto, indagamos sobre casos em que sintomas de uma neurose infantil são tomados em uma efetividade sexual que leva a criança a uma posição para a qual ela ainda não apresenta condições de enunciação e, em outros perturba seu processo de aprendizagem. Interrogamo-nos ainda sobre o destino da latência nesta posição discursiva que induz a uma antecipação da efetivação do sexual, mas de um sexual que na adolescência passa a importar como performance. Então, se lembrarmos a observação de Lacan sobre o advento da época da criança generalizada, o que isso constituiria em termos subjetivos? Teríamos aí a constituição de um campo sem bordas, a exemplo da incidência do mundo virtual na realidade psíquica nas já localizadas formas de adição ao virtual, tanto na infância como na adolescência? Simultaneamente, uma nova dimensão de tempo desponta. Um tempo rápido demais contribui também para a dissolução da disparidade entre a criança, o adolescente e o adulto, conduzindo ao zapping que permeia hoje o modus vivendi dos jovens, induzindo-os a um deslizar permanente, com incidências na atenção, no pensamento e na aprendizagem. Deslizar que tem efeitos no próprio corpo, onde a anorexia galopante ou a obesidade contagiante são sintomas cada vez mais presentes. Faz-se assim necessário uma nova leitura dessas formas clínicas peculiares, da infância e de adolescência, à luz dos efeitos da mundialização da economia e do discurso da ciência. É indispensável ainda refletirmos sobre as conseqüências do deslocamento e rápida queda da autoridade paterna, que se dilui na autoridade parental, a partir das novas formas de intervenção do Estado nos laços entre pais e filhos, e suas possíveis relações com a violência.

O que é que o psicanalista pode formular a partir do que aprende e apreende com crianças e adolescentes clínica privada e ou na clínica do social? Ou seja, na confrontação cotidiana com o real da clínica, onde tropeça o saber do psicanalista hoje? Desse real que lhe impacta, o que é da ordem da impotência e o que decorre da impossibilidade?


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